O
Ás de copas
A
primeira pergunta que devemos fazer antes de começar essa história
é: “Qual é a necessidade de uma singular visão da arte e da
vida?”
Pergunte-se,
perguntou?
Então,
agora podemos começar.
E
começamos com o nascimento, pois devemos iniciar do princípio.
Era
tarde, e o útero não mais suportava a criação; a criação nunca
suportou o útero.
A
criatura sempre transcende sua própria mãe, o nascimento é maior,
maior que a geração. Suavemente o nascimento é fim e meio, com
calma se nasce.
E assim
se nasce numa tarde de domingo, azul. Já passava das quatro e a
praia estava vazia, o sol estava frio, o mar ainda mais. Ela nasceu
ruiva e adolescente. Conforme se levantava seus seios eram
descobertos, as ancas e por fim as pernas. Estava pronta, sangrava,
via-se uma mulher e tudo já estava posto para ela.
Sair do
embaraço da placenta não é coisa fácil, pior deve ser se
desgrudar da parte que lhe gera. Eu não sei, nunca nasci, só estou
aqui pra contar pra quem quiser ler, essa história.
O sol
frio, a pele quente e a brisa. Lá estava ela. E lá estava o mundo.
Ninguém sabe como se vestiu, como terminou de nascer, como falou com
os outros, e como … e como… e como… e todas essas coisas que
você deve estar perguntando. Não precisamos mais que isso que foi
dado, apenas isso é o suficiente.
O
dois de copas
Levaram-na.
Era coisa feia nudez. Vestiram-na e ela já não era mais ruiva, era
negra como a noite, e não tinha casa, a rua era aquilo que possuía
e ninguém tomava dela. Chorava de fome, as vezes de frio, mas o
choro do medo era constante. Estava prisioneira de sua própria pele
e de sua forma mulher, não entendia seu sexo, nem tinha desejos. Era
desejada sempre. E por vezes violentada por não reconhecer a
violência nos olhos dos homens. Era ainda criança e se embriagava
sempre que podia para aliviar qualquer coisa que doía.
O
três de copas
Cresceu, entendeu, e criou sua vontade, percebeu-se explorada e
inquieta. A saída das ruas era pelas ruas, e tornou-se mulher.
Mulher como diziam que ela tinha que ser: agora era como diziam
“morena gostosa”, pele cor de jambo, a própria sensualidade em
carne. Era uma mulher da vida, e vida era guerra, com uma faca
escondida entre os dentes tomou um nome: Ariana. Seu nome, sua defesa
para a violência.
Vivia na noite e dava pequenos golpes. Primeiro o disfarce era de
prostituta para roubar carteiras relógios e outros objetos que ela
via, depois, vendia.
Segundo, já era prostituta, pois parecia ser esse seu destino fatal.
Aceitou a sexualidade imposta, seu corpo oferecido, seu corpo que
nasceu do mar e perdeu-se na terra, parecia nem ser mais seu.
Mas o três de copas não é apenas as desgraças dessa guerra,
Ariana encontrou Dionísio. E ele lhe disse “amor”. Ela nem sabia
o que era isso de amor. Mas pareceu certa a oportunidade de se livrar
da vida de guerra.
O
quatro de copas
Agora era loira, de olhos azuis e parecia uma boneca, Dionísio era
rico, a transformou. Ela teve workshop de como ser mulher para se
casar. E realizou todos os desejos que diziam que ela tinha, comprava
tudo que era mais caro.
Aquilo não era mais vida, não mais nenhuma mulher da vida. E o pior
é que Ariana tava sentindo o tal do amor. E decidiu que tudo o que
sentia por Dionísio era amor. Mas não entendeu isso.
As outras mulheres loiras, altas, educadas e ricas da alta sociedade
a chamavam de amiga. E cochichavam delicados venenos nas veias de
Ariana.
Os cabelos dela começaram a ficar pretos, o corpo transformava-se
robustamente e todas as palavras que aquelas senhoras da alta classe
lhe dizia fazia coçar qualquer coisa dentro de si.
E assim, pela primeira vez ouviu a coisa que coçava, percebeu que
era dor.
Fez-se mulher, novamente, agora sabendo de tudo o que mulher
significa. Mudou sua realidade, não viu Dionísio por meses, cortou
o cabelo e se vestiu de negro. Fazia seu luto.
A
carta que não existe
E nasceram flores na cabeça de Ariana. Flores que explodiam em
amarelo e preto. Não era possível suportá-las dentro, ainda não
tinha chegada na epifania maior, ainda não tinha transcendido
Dionísio, que por vezes a procurava. E ele aparecia tranquilo mas
cheio de moscas, como coisa morta.
Ariana agora não tinha cor, nem cabelos, nem sexo, nem significado.
As flores a deixaram com quase trinta anos, a faria mãe mas ela não
queria dar luz, não queria ser sol, luminária, lâmpada. Só queria
poder fazer fotossíntese e fabricar seu próprio alimento.
E de tudo ainda restava o nada, que estava na cabeça de Dionísio.
O
oito de copas
Cada degrau doía muito, abria fendas nos pés, sangrava. Ariana
descia, e descia. Todos lances, todas as escadas, até encontrar o
barco que a levaria de volta.
Lá, pra onde se volta, é lugar nenhum, é o desfabrico, o desfazer,
onde encostamos nossas cabeças e descansamos com calma. Resignamos
nossa alma e não importa quem somos, não vamos em lugar algum.
Lá fechamos os olhos e a água nos cobre, ouve-se os chocalhos das
cobras e o canto de Nanã. E no colo da grande preta mãe da morte,
nós mulheres, repousamos sem precisar estar na vida.
Ariana descansava já e era tudo que queria.
Mas Dionísio a resgatou do que ela queria.
Nove
de copas invertido
Dionísio deu um copo de vinho para Ariana. Ela se embebedou, estava
farta.
Ele, que é o inverso de Apolo, seu irmão, entrou pela noite
consumindo-se, e carregando Ariana embriaga. Seu falo estava ereto e
rosa, e ele dançava nu no meio de tantos outros corpos jovens
naquele jardim de delícias.
Em um lapso de justiça, o esprito de Ariana a levanta. Quebrou a
taça de vinho, e com a haste estripou Dionísio.
Todos que estavam ali apenas queriam possuir Dionísio. E vendo tanto
sangue disputaram para sorver o derramamento, engoliram suas tripas,
e num ato de poesia fizeram sexo até amanhecer.
Ariana, correu de volta para o colo de Nanã. E com a mesma haste com
sangue de remorso crava em si o fim.
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