quinta-feira, 8 de junho de 2017

O baralho de copas

O Ás de copas


A primeira pergunta que devemos fazer antes de começar essa história é: “Qual é a necessidade de uma singular visão da arte e da vida?”

Pergunte-se, perguntou?

Então, agora podemos começar.

E começamos com o nascimento, pois devemos iniciar do princípio.
Era tarde, e o útero não mais suportava a criação; a criação nunca suportou o útero.
A criatura sempre transcende sua própria mãe, o nascimento é maior, maior que a geração. Suavemente o nascimento é fim e meio, com calma se nasce.

E assim se nasce numa tarde de domingo, azul. Já passava das quatro e a praia estava vazia, o sol estava frio, o mar ainda mais. Ela nasceu ruiva e adolescente. Conforme se levantava seus seios eram descobertos, as ancas e por fim as pernas. Estava pronta, sangrava, via-se uma mulher e tudo já estava posto para ela.
Sair do embaraço da placenta não é coisa fácil, pior deve ser se desgrudar da parte que lhe gera. Eu não sei, nunca nasci, só estou aqui pra contar pra quem quiser ler, essa história.

O sol frio, a pele quente e a brisa. Lá estava ela. E lá estava o mundo. Ninguém sabe como se vestiu, como terminou de nascer, como falou com os outros, e como … e como… e como… e todas essas coisas que você deve estar perguntando. Não precisamos mais que isso que foi dado, apenas isso é o suficiente.


O dois de copas


Levaram-na. Era coisa feia nudez. Vestiram-na e ela já não era mais ruiva, era negra como a noite, e não tinha casa, a rua era aquilo que possuía e ninguém tomava dela. Chorava de fome, as vezes de frio, mas o choro do medo era constante. Estava prisioneira de sua própria pele e de sua forma mulher, não entendia seu sexo, nem tinha desejos. Era desejada sempre. E por vezes violentada por não reconhecer a violência nos olhos dos homens. Era ainda criança e se embriagava sempre que podia para aliviar qualquer coisa que doía.

O três de copas

Cresceu, entendeu, e criou sua vontade, percebeu-se explorada e inquieta. A saída das ruas era pelas ruas, e tornou-se mulher.
Mulher como diziam que ela tinha que ser: agora era como diziam “morena gostosa”, pele cor de jambo, a própria sensualidade em carne. Era uma mulher da vida, e vida era guerra, com uma faca escondida entre os dentes tomou um nome: Ariana. Seu nome, sua defesa para a violência.
Vivia na noite e dava pequenos golpes. Primeiro o disfarce era de prostituta para roubar carteiras relógios e outros objetos que ela via, depois, vendia.
Segundo, já era prostituta, pois parecia ser esse seu destino fatal. Aceitou a sexualidade imposta, seu corpo oferecido, seu corpo que nasceu do mar e perdeu-se na terra, parecia nem ser mais seu.

Mas o três de copas não é apenas as desgraças dessa guerra, Ariana encontrou Dionísio. E ele lhe disse “amor”. Ela nem sabia o que era isso de amor. Mas pareceu certa a oportunidade de se livrar da vida de guerra.

O quatro de copas

Agora era loira, de olhos azuis e parecia uma boneca, Dionísio era rico, a transformou. Ela teve workshop de como ser mulher para se casar. E realizou todos os desejos que diziam que ela tinha, comprava tudo que era mais caro.

Aquilo não era mais vida, não mais nenhuma mulher da vida. E o pior é que Ariana tava sentindo o tal do amor. E decidiu que tudo o que sentia por Dionísio era amor. Mas não entendeu isso.

As outras mulheres loiras, altas, educadas e ricas da alta sociedade a chamavam de amiga. E cochichavam delicados venenos nas veias de Ariana.

Os cabelos dela começaram a ficar pretos, o corpo transformava-se robustamente e todas as palavras que aquelas senhoras da alta classe lhe dizia fazia coçar qualquer coisa dentro de si.
E assim, pela primeira vez ouviu a coisa que coçava, percebeu que era dor.
Fez-se mulher, novamente, agora sabendo de tudo o que mulher significa. Mudou sua realidade, não viu Dionísio por meses, cortou o cabelo e se vestiu de negro. Fazia seu luto.

A carta que não existe

E nasceram flores na cabeça de Ariana. Flores que explodiam em amarelo e preto. Não era possível suportá-las dentro, ainda não tinha chegada na epifania maior, ainda não tinha transcendido Dionísio, que por vezes a procurava. E ele aparecia tranquilo mas cheio de moscas, como coisa morta.

Ariana agora não tinha cor, nem cabelos, nem sexo, nem significado. As flores a deixaram com quase trinta anos, a faria mãe mas ela não queria dar luz, não queria ser sol, luminária, lâmpada. Só queria poder fazer fotossíntese e fabricar seu próprio alimento.

E de tudo ainda restava o nada, que estava na cabeça de Dionísio.


O oito de copas

Cada degrau doía muito, abria fendas nos pés, sangrava. Ariana descia, e descia. Todos lances, todas as escadas, até encontrar o barco que a levaria de volta.

Lá, pra onde se volta, é lugar nenhum, é o desfabrico, o desfazer, onde encostamos nossas cabeças e descansamos com calma. Resignamos nossa alma e não importa quem somos, não vamos em lugar algum.

Lá fechamos os olhos e a água nos cobre, ouve-se os chocalhos das cobras e o canto de Nanã. E no colo da grande preta mãe da morte, nós mulheres, repousamos sem precisar estar na vida.
Ariana descansava já e era tudo que queria.
Mas Dionísio a resgatou do que ela queria.



Nove de copas invertido

Dionísio deu um copo de vinho para Ariana. Ela se embebedou, estava farta.

Ele, que é o inverso de Apolo, seu irmão, entrou pela noite consumindo-se, e carregando Ariana embriaga. Seu falo estava ereto e rosa, e ele dançava nu no meio de tantos outros corpos jovens naquele jardim de delícias.

Em um lapso de justiça, o esprito de Ariana a levanta. Quebrou a taça de vinho, e com a haste estripou Dionísio.

Todos que estavam ali apenas queriam possuir Dionísio. E vendo tanto sangue disputaram para sorver o derramamento, engoliram suas tripas, e num ato de poesia fizeram sexo até amanhecer.


 Ariana, correu de volta para o colo de Nanã. E com a mesma haste com sangue de remorso crava em si o fim.  

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