"Deusa Urbana" - Caetano Veloso
Com você eu tenho medo de me apaixonar
Eu tenho mede de não me apaixonar
Tenho medo dele
Tenho dela
Os dois juntos onde eu não podia entrar
Com você eu tenho medo de me conformar
Eu tenho medo de não me conformar
Sexo heterodoxo
Lapsos de desejo
Mucosa roxa
Peito cor de rola
Seu beijo, seu texto
Sue queixo, seu pelo
Sua coxa
Menina deusa urbana
Neta do sol
Eu sou você e
Os meus rivais
Sou só
Mucosa roxa
Peito cor de rola
Seu beijo, seu texto
Seu cheiro, seu pelo
‘Cê toda
Menina deusa urbana
Neta do sol
Eu sou vocês e o meus rivais
Sou só
O corpo de Ariana tremia de desejo. Era só desejo, tão forte e impulsivo, e impossível. Seu corpo estava quente, temia sem parar, como se ali houvesse a descoberta do sexo. Era tão forte que puxava ela para a paralisação total, direto no eixo do chão, estatelada, em pé. Ele segurou levemente a cintura dela e a beijo com distância entre os corpos, ela não se permitiria ter os corpos juntos, sentir mais que do que não poderia. Parecia que iria explodir naquele momento como uma bexiga com mais ar do que pode aguentar. A impressão era de que ela só não iria explodir por que ele iria salvar ela em um estrangulamento total de desejo.
Agora o corpo dela entrava em choque completo, tinha sangue
fluindo em todas as pontas de seus dedos, o coração estava quieto demais para
falar qualquer coisa, não se movia. Ela até pensou que o sangue que estava
fazendo seu corpo tremer tão intensamente, na verdade, se bombeava sozinho,
como um sistema de efervescências de um moto contínuo. Não tinha corações ali, o
que se tinha ali era mucosa dilatada, era a maciez, a embriaguez, o calor. Seus
seios pediam pelo toque, eles empurravam a o sutiã por baixo da blusa, doíam. Parecia
que se ele os pegasse e apertasse com toda a força possível que um homem com
desejo pode ter, eles não iriam doer, não iriam pedir, não iriam mais tenta
saltar por causa do calor.
Ele puxou o corpo estatelado dela pra perto do seu como para
mostrar algo. Ela sentiu na altura de seu diafragma a maciez dura da ereção. Sua
respiração profunda parou e se inverteu quase em um soluço. A novidade do que
acontecia ali, no momento mais presente possível do agora, vinha do sangue. Sangue
que queria sair do corpo, mas se debatia e não achava nenhuma brecha entre as veias,
dilatando tudo. Ariana queria tocar com a palma da mão a maciez dura que estava
ali pronta pra ela, hesitou, deu um passo para trás, as bocas se decolaram, ela
respirou e viu toda a avenida ali em volta deles. Ele olhou diretamente na alma
dela, mas era tanta explosão acontecendo... Sem paciência ele a puxou, o corpo
dela foi pra perto. E novamente ela sentiu bater em sua barriga, imperioso,
intenso o pau dele. Ele voltou a beijá-la. Por um instante ultrapassou a roupa
dela, a calcinha, a carne, e estava exatamente encaixado dentro de sua vagina,
muito, muito, perto do seu útero. Naquela loucura ela podia sentir exatamente o
tamanho, a largura e a textura macia que empurravam as paredes por dentro, ela
derretia. Ariana abriu os olhos e sentiu a barba dele em seu rosto, ela queria
que aqueles pelos a arranhasse completamente, esfolasse seus lábios, tão forte,
mas tão forte, muito além de dor, dando espaço para o sangue sair. Pensou
repentinamente que o desejo devesse doer mesmo, devesse explodir mesmo,
ultrapassar, eliminar oxigênio, até se aproximar imediatamente de uma morte
súbita e rápida. Como ela queria morrer pequenamente naquele instante! Seu
corpo amolecia dentro dos braços dele, como se entregando. Foi quando o coração
que voltou a bater.
Ariana estava voltando a si, empurrou ele levemente, ele
tentou puxar ela de novo, mas seu corpo tinha dado tempo para que ela pudesse pensar.
Respirou fundo, sentiu que estava tão enlouquecida naquele momento que
precisava voltar, se recompor.
Fora dela, na avenida, passou muito rápido um entregador em
cima de uma moto. A cabeça dela acompanhou o som enfurecido do motor, a cabeça
do entregador acompanhou a imagem distante dos dois corpos próximos. O
entregador queria estar no meio dos dois, sentindo o calor, mas aqui ele não
entraria, deu uma risada por causa da bagunça que lhe acometeu, e tentou voltar
a olhar para frente.
Já era tarde, Ariana percebeu, e gritou. O entregador que
estava ainda com os olhos no rosto dela e um leve sorriso na boca embaixo do
capacete, também estava em direção vetorial direta com outro carro que vinha no
cruzamento das ruas. O corpo de Ariana esfriou intensamente, parecia que tinha
levado um choque em todos seus membros. Estava gelada. Um estrondo na avenida
clareada pelos postes brancos.