sábado, 22 de maio de 2021

Deusa Urbana


"Deusa Urbana" - Caetano Veloso 

Com você eu tenho medo de me apaixonar

Eu tenho mede de não me apaixonar

Tenho medo dele 

Tenho dela

Os dois juntos onde eu não podia entrar

Com você eu tenho medo de me conformar

Eu tenho medo de não me conformar

Sexo heterodoxo

Lapsos de desejo

Mucosa roxa

Peito cor de rola

Seu beijo, seu texto

Sue queixo, seu pelo

Sua coxa

Menina deusa urbana

Neta do sol

Eu sou você e

Os meus rivais

Sou só

Mucosa roxa

Peito cor de rola

Seu beijo, seu texto

Seu cheiro, seu pelo

‘Cê toda

Menina deusa urbana

Neta do sol

Eu sou vocês e o meus rivais

Sou só 






 O corpo de Ariana tremia de desejo. Era só desejo, tão forte e impulsivo, e impossível. Seu corpo estava quente, temia sem parar, como se ali houvesse a descoberta do sexo. Era tão forte que puxava ela para a paralisação total, direto no eixo do chão, estatelada, em pé. Ele segurou levemente a cintura dela e a beijo com distância entre os corpos, ela não se permitiria ter os corpos juntos, sentir mais que do que não poderia. Parecia que iria explodir naquele momento como uma bexiga com mais ar do que pode aguentar. A impressão era de que ela só não iria explodir por que ele iria salvar ela em um estrangulamento total de desejo.

Agora o corpo dela entrava em choque completo, tinha sangue fluindo em todas as pontas de seus dedos, o coração estava quieto demais para falar qualquer coisa, não se movia. Ela até pensou que o sangue que estava fazendo seu corpo tremer tão intensamente, na verdade, se bombeava sozinho, como um sistema de efervescências de um moto contínuo. Não tinha corações ali, o que se tinha ali era mucosa dilatada, era a maciez, a embriaguez, o calor. Seus seios pediam pelo toque, eles empurravam a o sutiã por baixo da blusa, doíam. Parecia que se ele os pegasse e apertasse com toda a força possível que um homem com desejo pode ter, eles não iriam doer, não iriam pedir, não iriam mais tenta saltar por causa do calor.   

Ele puxou o corpo estatelado dela pra perto do seu como para mostrar algo. Ela sentiu na altura de seu diafragma a maciez dura da ereção. Sua respiração profunda parou e se inverteu quase em um soluço. A novidade do que acontecia ali, no momento mais presente possível do agora, vinha do sangue. Sangue que queria sair do corpo, mas se debatia e não achava nenhuma brecha entre as veias, dilatando tudo. Ariana queria tocar com a palma da mão a maciez dura que estava ali pronta pra ela, hesitou, deu um passo para trás, as bocas se decolaram, ela respirou e viu toda a avenida ali em volta deles. Ele olhou diretamente na alma dela, mas era tanta explosão acontecendo... Sem paciência ele a puxou, o corpo dela foi pra perto. E novamente ela sentiu bater em sua barriga, imperioso, intenso o pau dele. Ele voltou a beijá-la. Por um instante ultrapassou a roupa dela, a calcinha, a carne, e estava exatamente encaixado dentro de sua vagina, muito, muito, perto do seu útero. Naquela loucura ela podia sentir exatamente o tamanho, a largura e a textura macia que empurravam as paredes por dentro, ela derretia. Ariana abriu os olhos e sentiu a barba dele em seu rosto, ela queria que aqueles pelos a arranhasse completamente, esfolasse seus lábios, tão forte, mas tão forte, muito além de dor, dando espaço para o sangue sair. Pensou repentinamente que o desejo devesse doer mesmo, devesse explodir mesmo, ultrapassar, eliminar oxigênio, até se aproximar imediatamente de uma morte súbita e rápida. Como ela queria morrer pequenamente naquele instante! Seu corpo amolecia dentro dos braços dele, como se entregando. Foi quando o coração que voltou a bater.

Ariana estava voltando a si, empurrou ele levemente, ele tentou puxar ela de novo, mas seu corpo tinha dado tempo para que ela pudesse pensar. Respirou fundo, sentiu que estava tão enlouquecida naquele momento que precisava voltar, se recompor.

Fora dela, na avenida, passou muito rápido um entregador em cima de uma moto. A cabeça dela acompanhou o som enfurecido do motor, a cabeça do entregador acompanhou a imagem distante dos dois corpos próximos. O entregador queria estar no meio dos dois, sentindo o calor, mas aqui ele não entraria, deu uma risada por causa da bagunça que lhe acometeu, e tentou voltar a olhar para frente.

Já era tarde, Ariana percebeu, e gritou. O entregador que estava ainda com os olhos no rosto dela e um leve sorriso na boca embaixo do capacete, também estava em direção vetorial direta com outro carro que vinha no cruzamento das ruas. O corpo de Ariana esfriou intensamente, parecia que tinha levado um choque em todos seus membros. Estava gelada. Um estrondo na avenida clareada pelos postes brancos.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Dias de abismo

Estar à beira de todo esse abismo
Gritar
E ser sufucada
Nunca tinha sentido a dor da repressão
O inferno de ser diferente
De ter minhas calmas agarradas
Agarro todo meu medo
Faço força
E sou raiva
É só isso
A angustia da amputação
Da anulação
Aos poucos
Me faço silêncio 
Me faço negociadora
Me despem
E só fica o silêncio
Podem me arrastar
Serei silêncio
Não irei mais comprometer
Os sufocantes segundos de morrer
Que alívio
O pulo
E o fim
A desistência de lutar

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O mestre

O mestre é mármore. Esculpido em calma, fala que a dor é comum pra se tornar mestre. Mas como? Um dia você saberá... Será mestre também, ainda é criança. Ele diz coisas que orientam movimentações, é endeusado em seu pedestal. Mas e verdade é que não existe figura de maior ridiculosidade que o mestre, na verdade ser mestre é um palhaço. E é apenas ele e quem o segue que não percebe. Já aquele que sabe dos problemas mentais, das mentiras e da amargura não vai na trilha, se recusa. Não que seja esperto, as vezes é tão tapado quanto o próprio deus, porém sabe o mau que o velho exposto no contraditório faz. O velho sempre deve ser perseguido, resignificar na história, onde o passado e futuro se encontram, todos sabemos que é importante. Porém, o velho tem poder, e mexe com todas as forças dos presentes. Olha, a forma como o velho é ensinado é de suma importância, por isso o mestre não deve ser assim, pois ele é força de vento na tempestade, na verdade, nem sei se ele deve existir

Ele não deve existir, deve apenas ser pessoa normal, ser humano coisa feita de carne. Não deus, não ... deus.
O mestre deve ser um igual que não usa de seu poder para saracotear com seus seguidores. Saracotear seus seguidores. A situação é de desespero quando o seguidor se encontra longe de ser mestre e com o mestre contra ele. Pois no fim do ensinamento, o seguidor será concorrente do mestre, e terá seus seguidores. 
Forma-se para matá-lo. Como alguém pode ficar em paz com essa ideia?
Cuidados com o mestre, nunca são demais.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Criança sem amor

Sabia nada da nossa profundidade
Sabia nada do fim do mundo
Como uma criança irracional e
Inconsciente
Apenas reverbera seu amor
Como meus gatos que enrolam
Era criança e se enrolava
Pedia atenção e implorava
A coluna torta na cadeira macia

A criança pirraçava com o amor
Olhava o amor e falava que queria
Mas ele é calmo
E dizia: acalma-te criança,
Tsc, tsc,
Nada é pra já
Amor rápido é paixão
Não sou eu não
A criança batia as mãos na mesa
E gritava
Queria devorar a paixão
Como adulto que brinca de amor
Que acha que ama

A criança se perdeu um dia
E nunca mais se achará
Pois não tem paciência consciente
Da razão
Espera sem sentir
Que a espera é parte da vida
Ao perder-se ela definhará 
E se tornará adulto sem nem mesmo paixão

Febre

o corpo dela fremia. Era febre. Ela suava naquele verão. Nada a tocava, apenas o desejo. Existia a impossibilidade, a distância e o impossível. Alguma coisa desatou em seu corpo e ela sentiu tudo que precisava. Ela dizia, não me toque, não me toque.
E ele não a tocaria se ela não permitisse, porém ela desejava com todo fervor. Era desejo. Desejo, consumia sua própria alma. Não a toque, segure a mão, as pontas dos dedos no ar quente, não pode tocá-la pois ela ferve.
Suspensa, e atrás de si um tufão.

 Tomo-o em suas mãos e ela seguia o momento até seu seio. Aperta-os. Ela os aperta.

Estou aqui, plena e inteira, Vênus em adolescência, saída da bruma do mar. Coma-me, se não vai doer. O tesão morto se consome e dói. Por favor me coma, se não te devoro; e faz as bolhas na água para o oxigênio subir até a atmosfera e a tempestade virar chuva quente.
Chuva quente, que caí no verão.

Ela arde de febre, coelho, lebre, raposa, amor.

Sou mulher inteira e quero sua boca molhada.
Escorre o tempo em saliva, ela saliva que nem cachorro no sol. Seu suor é queda de loucura. Rodopia na nuca e desce entre sua nádegas.

A febre as vezes se tranquiliza, mas ela sempre vai retornar.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

O baralho de copas

O Ás de copas


A primeira pergunta que devemos fazer antes de começar essa história é: “Qual é a necessidade de uma singular visão da arte e da vida?”

Pergunte-se, perguntou?

Então, agora podemos começar.

E começamos com o nascimento, pois devemos iniciar do princípio.
Era tarde, e o útero não mais suportava a criação; a criação nunca suportou o útero.
A criatura sempre transcende sua própria mãe, o nascimento é maior, maior que a geração. Suavemente o nascimento é fim e meio, com calma se nasce.

E assim se nasce numa tarde de domingo, azul. Já passava das quatro e a praia estava vazia, o sol estava frio, o mar ainda mais. Ela nasceu ruiva e adolescente. Conforme se levantava seus seios eram descobertos, as ancas e por fim as pernas. Estava pronta, sangrava, via-se uma mulher e tudo já estava posto para ela.
Sair do embaraço da placenta não é coisa fácil, pior deve ser se desgrudar da parte que lhe gera. Eu não sei, nunca nasci, só estou aqui pra contar pra quem quiser ler, essa história.

O sol frio, a pele quente e a brisa. Lá estava ela. E lá estava o mundo. Ninguém sabe como se vestiu, como terminou de nascer, como falou com os outros, e como … e como… e como… e todas essas coisas que você deve estar perguntando. Não precisamos mais que isso que foi dado, apenas isso é o suficiente.


O dois de copas


Levaram-na. Era coisa feia nudez. Vestiram-na e ela já não era mais ruiva, era negra como a noite, e não tinha casa, a rua era aquilo que possuía e ninguém tomava dela. Chorava de fome, as vezes de frio, mas o choro do medo era constante. Estava prisioneira de sua própria pele e de sua forma mulher, não entendia seu sexo, nem tinha desejos. Era desejada sempre. E por vezes violentada por não reconhecer a violência nos olhos dos homens. Era ainda criança e se embriagava sempre que podia para aliviar qualquer coisa que doía.

O três de copas

Cresceu, entendeu, e criou sua vontade, percebeu-se explorada e inquieta. A saída das ruas era pelas ruas, e tornou-se mulher.
Mulher como diziam que ela tinha que ser: agora era como diziam “morena gostosa”, pele cor de jambo, a própria sensualidade em carne. Era uma mulher da vida, e vida era guerra, com uma faca escondida entre os dentes tomou um nome: Ariana. Seu nome, sua defesa para a violência.
Vivia na noite e dava pequenos golpes. Primeiro o disfarce era de prostituta para roubar carteiras relógios e outros objetos que ela via, depois, vendia.
Segundo, já era prostituta, pois parecia ser esse seu destino fatal. Aceitou a sexualidade imposta, seu corpo oferecido, seu corpo que nasceu do mar e perdeu-se na terra, parecia nem ser mais seu.

Mas o três de copas não é apenas as desgraças dessa guerra, Ariana encontrou Dionísio. E ele lhe disse “amor”. Ela nem sabia o que era isso de amor. Mas pareceu certa a oportunidade de se livrar da vida de guerra.

O quatro de copas

Agora era loira, de olhos azuis e parecia uma boneca, Dionísio era rico, a transformou. Ela teve workshop de como ser mulher para se casar. E realizou todos os desejos que diziam que ela tinha, comprava tudo que era mais caro.

Aquilo não era mais vida, não mais nenhuma mulher da vida. E o pior é que Ariana tava sentindo o tal do amor. E decidiu que tudo o que sentia por Dionísio era amor. Mas não entendeu isso.

As outras mulheres loiras, altas, educadas e ricas da alta sociedade a chamavam de amiga. E cochichavam delicados venenos nas veias de Ariana.

Os cabelos dela começaram a ficar pretos, o corpo transformava-se robustamente e todas as palavras que aquelas senhoras da alta classe lhe dizia fazia coçar qualquer coisa dentro de si.
E assim, pela primeira vez ouviu a coisa que coçava, percebeu que era dor.
Fez-se mulher, novamente, agora sabendo de tudo o que mulher significa. Mudou sua realidade, não viu Dionísio por meses, cortou o cabelo e se vestiu de negro. Fazia seu luto.

A carta que não existe

E nasceram flores na cabeça de Ariana. Flores que explodiam em amarelo e preto. Não era possível suportá-las dentro, ainda não tinha chegada na epifania maior, ainda não tinha transcendido Dionísio, que por vezes a procurava. E ele aparecia tranquilo mas cheio de moscas, como coisa morta.

Ariana agora não tinha cor, nem cabelos, nem sexo, nem significado. As flores a deixaram com quase trinta anos, a faria mãe mas ela não queria dar luz, não queria ser sol, luminária, lâmpada. Só queria poder fazer fotossíntese e fabricar seu próprio alimento.

E de tudo ainda restava o nada, que estava na cabeça de Dionísio.


O oito de copas

Cada degrau doía muito, abria fendas nos pés, sangrava. Ariana descia, e descia. Todos lances, todas as escadas, até encontrar o barco que a levaria de volta.

Lá, pra onde se volta, é lugar nenhum, é o desfabrico, o desfazer, onde encostamos nossas cabeças e descansamos com calma. Resignamos nossa alma e não importa quem somos, não vamos em lugar algum.

Lá fechamos os olhos e a água nos cobre, ouve-se os chocalhos das cobras e o canto de Nanã. E no colo da grande preta mãe da morte, nós mulheres, repousamos sem precisar estar na vida.
Ariana descansava já e era tudo que queria.
Mas Dionísio a resgatou do que ela queria.



Nove de copas invertido

Dionísio deu um copo de vinho para Ariana. Ela se embebedou, estava farta.

Ele, que é o inverso de Apolo, seu irmão, entrou pela noite consumindo-se, e carregando Ariana embriaga. Seu falo estava ereto e rosa, e ele dançava nu no meio de tantos outros corpos jovens naquele jardim de delícias.

Em um lapso de justiça, o esprito de Ariana a levanta. Quebrou a taça de vinho, e com a haste estripou Dionísio.

Todos que estavam ali apenas queriam possuir Dionísio. E vendo tanto sangue disputaram para sorver o derramamento, engoliram suas tripas, e num ato de poesia fizeram sexo até amanhecer.


 Ariana, correu de volta para o colo de Nanã. E com a mesma haste com sangue de remorso crava em si o fim.  

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Vai morrer, meu bem

Acácias vibravam com o vento 
E rolavam lágrimas de novembro 
A solidão das flores
É a mesma dos astros 
Mesquinha, manufaturada por si mesma 
A solidão é feita sozinha 
(Ou toda populosa) 
Vem calada 
Vai quieta 
A solidão é o incomodo infeliz 
É a caverna que te segura 
O sono que não acaba 

É o calar das acácias