terça-feira, 23 de abril de 2013

O menino amarelo

Os dentes brancos do menino amarelo batiam desesperados, zuniam como as cigarras. Ele corria por entre o mato e as cigarras gritavam de dentro das folhas, de dentro da terra. Sentia contorcer uma veia na altura do pescoço. Fazia nó.
Incomodavam as formigas subindo nas pernas, as plantas roçando, cortando. O coração batia, o menino não conseguia ouvir porque as cigarras gritavam de dentro da cabeça. Era vontade de explodir a mata, vontade de explodir a cidade, vontade de se explodir. Corria. Talvez assim o som parasse e então só seria silêncio.
E no meio da correria não viu a pedra, não viu a chuva, não viu que ia cair, caiu. Com a cara na lama percebeu a roupa suja, pensou no grito da mãe, na surra. Chorou, mas não por si. Era choro de outros que escorria pelas bochechas avermelhadas do menino amarelo. Limpava sua face, água da chuva, água dos olhos, água da terra. E o choro aumentava, a veia desatou estourou a pele e derramou. Era sangue dos outros que escorria pelo corpo do menino. Doía, porém o menino amarelo não sabia onde.
Foi quando olhou pro céu azul. Do céu caía água grossa que batia na ponta da folha de uma jaqueira. E os olhos pequenos e claros do menino amarelo viram um verde sem fim de árvore grande. Logo concluiu como abrigo o que via e abraçou o tronco com força. Esfregou seu rosto nas cascas da árvore, sentiu machucar. Resolveu subir. E na subida ia misturando seu sangue e lágrimas de outros com a seiva viva que escorria da jaqueira. Subia com ânsia de silêncio e aconchego.
E se um dia chegou no topo do pé é porque tinha mesmo era vontade de se lançar de lá de cima e quebrar-se em dez, em mil. Explodir o mundo vazio. Tornar-se bomba pra gritar e começar tudo, agora pronto a enfrentar outras lágrimas, outros sangues.


Para o menino amarelo Gau. 


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