Estou nua em carne. Branca.
Lembro-me de ainda ontem jurar não ser meus pais, que nada será como antes, que não serei criança crescida como são. Mas por causa de umas rosas, de uns moldes, dos uns descuidos com a criança ou quem sabe com a mãe... ou com a avó... Por causa das faltas, dos buracos e atos desumanos praticados por todos sinto fúria, raiva. E para além a obrigação de carregar a história da humanidade. Será que não é muito pra um individuo?
Já não a mesma e agora mesmo sinto culpa por tão profundo rancor. Esse sentimento só demonstra a incapacidade de mudar a mim mesma... É fácil ficar na tragédia: não se pode escapar do destinos. Por favor risadas.
Existe uma criança curiosa escondida no fundo do meu cranio, dentro de uma caixa, que quando me vê tentando organizar todas essas histórias, saí correndo e desarruma tudo. E sobre minhas costas largas, meu corpo de invertido de homem, ela sapateia causando mais que dor. De repente me reconheço vitima descontrolada e pulo no pescoço dela sacudindo-a com força pra ver se vai embora. Quando será que a novela mexicana vai acabar pra que eu morra, case ou seja presa? Quando será que o futuro irá acabar?
Tudo muito morto e mórbido. As pessoas rastejantes, latejantes, falta de humanidade lhes faltam. Em mim mesma vejo. Não sei se quero gritar pela minha consciência e só. Sem resultados, só até a força acabar. Ficar rouca e velha. E no fim: só com minha consciência limpa.
Qualquer coisa que tenha um desmedido esforço pra se executar se torna enfadonho e me torno preguiçosa. Saber do meu movimento já é desesperador. Estou aterrorizada, ensanguentada, estou nua e fui mordida por uma cobra colorau, fique preto e branco.
Não quero ser meus pais! Quem é você Renato Russo na noite de Londres, de Sampa, do inferno? Quem é você que tenta me convencer, de que tenho que me convencer, que está tudo certo neles?... É fácil a superação, mas as frustrações deixadas pelas lembranças do jardim de infância são ruins. Se na memória de um passado que deveria ser agradável não vejo nada além de medo e espera, não sei mais, não sei... Nada mudou.
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