Não queria falar do seu sorriso agora. Queria era mesmo, neste momento, dizer sem hesitação das outras coisas. Não faz muito sentido, não tenho sentido, desculpa. Tenho algumas balas ainda no peito, quer dizer, acho que são furos, buracos dilacerados cheios de pus, sangue e casquinhas pra serem arrancadas. Mas logo, logo você seria fumaça e entraria pelo cheiro de mata, pela morte do não. E eu já seria menos futuro e só agora, mesmo por alucinação.
To fazendo daqueles compensados de horas, as melhores, um receptáculo de açúcar, no qual fico olhando o tempo passar. Horas, cheias de memórias, do seu amor. Não, não queria ver o anuncio do seu sorriso nunca mais, mas seria difícil. Claro, concordo plenamente, um mentiroso sempre nega duas vezes pra afirmar.
Queria falar de outras coisa, de não-coisas: contra-matéria, cores sem luz, matéria escura. A real é que nem sei muito dessas coisas. Droga! Tudo bem, poderia ser razoável, falar da betônia, do beija-flor, dos outros pássaros, do vinho seco, do sexo, do inferno, da morte, da sorte ou da sobriedade de não tocar. Sabe? Tocar, tocar, segurar, colar, estar... você.
Fica aí quieto sentado na cadeira branca , noutro lado da mesa, deixa eu dar um zoom, olhar de perto seus poros abertos de cravinhos. Ver sua vida de semi-deus embriagado de carne e frango, como nossas pontes caídas. Cuida delas, por que isso é o que sempre peço. Cuida dos feridos mais um pouco, dos mendigos e dos alcoólatras.
Fica aí parado enquanto te pinto como um auto romântico e dolorido pela dores de todos os pecados. Usa aqueles olhos frios, de canto, falados em horas de sentido anti-horário. Olhar "d'javú mesmo antes de ver".
Fica aí pr'eu absorver sua poesia cotidiana de véu nublado. E depois deita na cama pra deleitar dos mais diversos torpores de amores perdidos. Sem lembrar muito, ainda seremos outros de manhã, tudo como se deve. O vento assustará o cachorro e ufa! Eu ainda me sentiria com sangue de barata pra escrever, mas isso é impessoal... é só.
Talvez eu devesse amar menos, desamar mais e tomar chá verde, sete ervas, camomila, erva-doce... Ser menos ansiosa, virar budista, controlar as mãos, ou a falta delas... Talvez devesse juntar dinheiro, ou juntar e não gastar. Deveria entrar no deserto com bastante sede, ficar várias noites sem dormir, conhecer mais meus medos. Aprontaria frases feitas que serviriam a todas ocasiões: " Ah, sim, como é agradável!". Talvez não devesse mais falar do seu sorriso, não agora, só que...
Esses são momentos sonsos, é como este, nutrem-se da vitalidade que vem da sua mãe ou irmã, da nossa filha. Agora sei que devo cuidar da poeira em cima do assoalho, quer dizer, do futuro e não te deixar entrar com os pés sujos. Seria retalhação, retração, auto-sabotagem, tentativa de bloqueio.
É aquela palavra seca, acho que se escreve assim: armo, não é assim... deixa ver, acho que é assim: oram... não! A eu esqueci, droga! Tsc.. Pode me ajudar? Acho que não, deixa, tá muito ocupado. É algumas coisa que desvia das artérias e mata, olvidei.
Vais morrer menino, como na outra vida, e isso não interessa, mudemos de assunto, de assento. Quer mais chá?
Quero falar do araçá azul. Deveria lamentar menos por não falar o que quero, todos são assim, poucos falam o que querem realmente. A maioria diz o que o curso do rio diz que deve: assim vivem, de marés.
Faça-me uma transfusão! Este coração de poeta, de punheta, faz tudo alargar-se, qualquer sentimento. Mais um copo de auto-proteção e já vamos. Mais um copo! Isso deixará meus pés no chão.
Calem-se todas tantas vozes que gritam do seu corpo pra minha cabeça. E também a falta de dor, de precaução, de precação, de instintos.
Cale-se esse seu sorriso. Sabe por que? Tudo raro é mais lindo, feche-o. Só abra nas horas raras e magistrais, aqueles segundos que antecedem o golpe.
Poucas palavras agora, as pouco faladas, que descrevem te ver sorrir de verdade e sem parar. Agente fica até pensado que não volverá a respirar. Desculpa não as acho, perdi, sou desastrada. Não importa. E quando volta vem o manifesto do alívio em mim, pois ainda sobra serenidade depois do gozo. Não sabe do que falo? É do seu sorriso.
Como sei, já falei demais, se visse como fico torta escrevendo isso, minhas costas doem. Vou ver matrix e nunca mais lembro de nada, juro pelo anticristo, santo Marx, Nietzsche ou o poderoso futuro novo guro. Heil Hitler! Risadas, por favor. Estamos escapando energia, sentiu?
Deixa pra lá, essa coisa de internet, poesia, iphone e tecnologia minha mãe disse que não serve pra nada. Pensando bem, no fim, ela tem razão.
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