O amor perde-se na algibeira das horas cruas que nós precipitamos dedicando encantos uns aos outros. Olhares furtivos, histórias cantadas, passados, presentes, futuros...
Sabe, eu nunca ganhei flores da pessoa amada.
Uma vez ganhei de um tio uma rosa rubra, depois de um professor um ramalhete de flores coloridas e por fim de um grande amigo, outra rosa, só amigo (está ao lado). Em todas ocasiões eu guardei com carinho e cuidado dentro de livros. De vez em quando, ainda me surpreendo ao ir procurar textos as vejo secas, com cheiros de mortos e lembranças.
Mas elas são rosas frouxas, aquelas que designaríamos a frase "essa não vale", como crianças. Não tem a dor de amor, nem rememorações de desejos, carinhos e olhares... não tem... Também não pense que são desvalorizadas por isso... Falam de outras coisas.
Queria hoje flores que me contassem das delicadezas de um homem por mim. Desculpa carência, é por que estou de luto, e não tenho flores nem velas pra que o choro do velório seja mais verdadeiro.
O amor ficou pequeno, foi definhando e morrendo. Um suspiro de alívio. Não doí mais, não é mais negado.
Eu quis muito que fosse rápida essa fase do amor esvaziar-se, porém nada é como queremos. Passei por negações extremas e vi a cara da morte, várias batalhas entre eu e eu mesma se constituíram, com danos para os dois lados.
Agora: Calmaria.
Ufa. Parece que em pleno velório eu sou a única na sala que não choro. Isso pois não tenho flores nem velas, nem sinto a morte, além disso estou a sala está vazia. Só eu em pé na frente do caixão.
Ficamos assim: o objeto foi se transformado ao longo desse tempo de coelhinho da pascoa, passando por papai noel, até chegar a Jack ou gato da Alice. Morreu aos poucos, como de uma doença degenerativa e já não sinto sua morte. Quer dizer, há alívio ao respirar fundo e não sentir o cheiro de qualquer flor desdeixada. Ufa.
Passei de raspão...
Agora estou mais só, o caixão já se foi, e aos pouco tiro a roupa preta de luto, ficando nua, cada vez mais sozinha, compreendendo a mim mesma e ao meu corpo.
Descubro que tudo que diz respeito a nos mesmos e esses sentimentos de luto precisam de paciência, mas é conosco, do eu pro eu. Mesmo que todos estejam feridos.
Mais um suspiro e a calmaria depois do gozo se instaura: já posso sair na rua e olhar em olhos diversos, me apaixonar de novo. Quem sabe na próxima não sobram flores?
O fim é sempre uma certeza e quanto mais tempo demora pra chegar, mais duro é.
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