Estávamos: eu e ela. Deitadas cuidando de nossas ideias pra
não perder o sentindo da realidade. Olhava-me como hoje, com aqueles olhinhos
puxados siameses e avermelhados, parecia que abara de chorar, o focinho acompanhava
a cor. Lavava as patinhas com a língua de presunto áspera. E me olhava, puxando
qualquer sentimento pra si e transformando-o em outra coisa que não coisa que
se sente. De vez em quando soltava um miado pra falar de sua presença crua
ainda filhote com medo. Mais seus olhinhos falam que é uma menina, não é? Recosta o pescoço macio na minha perna e
sorri, depois levanta rápida, eu continuo deitada.
Com esforço foquei o teto. Meus olhos estão claros e a luz
ainda incomoda muito, só entende quem tem esses olhos que mudam de cor a todo o
momento e deixam transparecer fácil o reflexo do profundo sentimento. Despertei
de vagar, ainda quieta pensei que poderia rezar antes de pular da cama. Não,
não sou resignada e essa religiões, nem a mim mesma, como muitos. Só pensei por
ser assim, gostoso, o conforto que de vez em quando trás a reza, tão bom saber
que os problemas não são tão meus.
Ela desceu da cama e miou, quer comida. Ou será só uma
questão de atenção? Ficou me olhando, com olhos grandes de curiosidades instintivas,
pequena pausa, outro miado, dessa vez mais forte.
E naquela manha de domingo ele fez uma falta. Fechei os
olhos e rezei: “Pai nosso que estais nos céus, santificado seus nomes, sejam
feitas essas vontades sem sentido que dizem que tens assim na terra como no fundo
dos infernos de Orfeu, o pão nosso de cada dia pode dar-me hoje, mas se tiver croissant
melhor.” Abri os olhos, só pra afastar essa reza sem sentindo que me vinha
escrita com cuidado, coisas do cérebro pra desistir de pensar em tempos passados. Desvios de caminhos pra distração infantil.
No fundo eu sabia da falta dele naquela manha de domingo, mas não deveria dar
sinal de entrega pra mim, se não sucumbiria à dor latejante a ponto de não sair
da cama.
Ela miou mais uma vez. Subiu na cama de novo, esfregou a
cauda longa, como se quisesse seduzir-me em troca de comida. Penso ainda hoje
como é uma menina carente. De vez em quando aproxima o focinho da minha boca e
a cheira, eu a afasto rápido, lembro-me da minha mãe dizendo que são animais. Lembro
pior: dele cheirando minha boca e falando que tinha um cheiro delicioso,
independente do que eu comesse. Eu queria mesmo era catar-lhe os carinhos
expressos em diferentes segundos e guarda-lhes em um vidro inodoro, insipido e
incolor. Mas nem isso poderia deixar-me
fazer, pra não dar vazão à próxima crise de desespero continuo. Deixei que vazasse por um buraco que na verdade
esconderia o mundo de mim.
E mais uma vez me reconheci em cima da cama, olhando o teto
branco com pontinhos pretos distantes.
Dessa vez ela não miou, só lambeu meu pé e bateu a pata como
se pedisse com certo desespero por atenção. Arranhou-me de leve a ponto de
doer, acordei.
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