terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pra essas meninas que se perdem em castelos brancos


Estávamos: eu e ela. Deitadas cuidando de nossas ideias pra não perder o sentindo da realidade. Olhava-me como hoje, com aqueles olhinhos puxados siameses e avermelhados, parecia que abara de chorar, o focinho acompanhava a cor. Lavava as patinhas com a língua de presunto áspera. E me olhava, puxando qualquer sentimento pra si e transformando-o em outra coisa que não coisa que se sente. De vez em quando soltava um miado pra falar de sua presença crua ainda filhote com medo. Mais seus olhinhos falam que é uma menina, não é?  Recosta o pescoço macio na minha perna e sorri, depois levanta rápida, eu continuo deitada.
Com esforço foquei o teto. Meus olhos estão claros e a luz ainda incomoda muito, só entende quem tem esses olhos que mudam de cor a todo o momento e deixam transparecer fácil o reflexo do profundo sentimento. Despertei de vagar, ainda quieta pensei que poderia rezar antes de pular da cama. Não, não sou resignada e essa religiões, nem a mim mesma, como muitos. Só pensei por ser assim, gostoso, o conforto que de vez em quando trás a reza, tão bom saber que os problemas não são tão meus.
Ela desceu da cama e miou, quer comida. Ou será só uma questão de atenção? Ficou me olhando, com olhos grandes de curiosidades instintivas, pequena pausa, outro miado, dessa vez mais forte.
E naquela manha de domingo ele fez uma falta. Fechei os olhos e rezei: “Pai nosso que estais nos céus, santificado seus nomes, sejam feitas essas vontades sem sentido que dizem que tens assim na terra como no fundo dos infernos de Orfeu, o pão nosso de cada dia pode dar-me hoje, mas se tiver croissant melhor.” Abri os olhos, só pra afastar essa reza sem sentindo que me vinha escrita com cuidado, coisas do cérebro pra desistir de pensar em tempos passados.  Desvios de caminhos pra distração infantil. No fundo eu sabia da falta dele naquela manha de domingo, mas não deveria dar sinal de entrega pra mim, se não sucumbiria à dor latejante a ponto de não sair da cama.
Ela miou mais uma vez. Subiu na cama de novo, esfregou a cauda longa, como se quisesse seduzir-me em troca de comida. Penso ainda hoje como é uma menina carente. De vez em quando aproxima o focinho da minha boca e a cheira, eu a afasto rápido, lembro-me da minha mãe dizendo que são animais. Lembro pior: dele cheirando minha boca e falando que tinha um cheiro delicioso, independente do que eu comesse. Eu queria mesmo era catar-lhe os carinhos expressos em diferentes segundos e guarda-lhes em um vidro inodoro, insipido e incolor.  Mas nem isso poderia deixar-me fazer, pra não dar vazão à próxima crise de desespero continuo.  Deixei que vazasse por um buraco que na verdade esconderia o mundo de mim.
E mais uma vez me reconheci em cima da cama, olhando o teto branco com pontinhos pretos distantes.
Dessa vez ela não miou, só lambeu meu pé e bateu a pata como se pedisse com certo desespero por atenção. Arranhou-me de leve a ponto de doer, acordei. 

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