Sophie falou que Carolina tá na janela, vendo a vida passar de vagar até hoje. Lenta, gorda, calma feita de preguiça por que parece que não se cansou de só ver. E nem adiantou, pois a própria Sophie já tentou alerta-la ("Mas imagina, ela não ouviu Chico com olhos azuis, quem dirá iria ouvir minha voz racional em seu olvido").
Parece que ela nem sabe... coitada. Viu tantos carnavais mas nunca foi beijada na avenida, nem ficou bêbada em uma sexta-feira treze de cinzas. Não se permitiu desencostar o cotovelo da janela e deixar segurar o queixo. Sophie disse: "Corre minina que a coisa se perde, você perde o sentimento quando se perde assim no tempo, aí só conseguirá calejar o cotovelo".
Algumas vezes passava homens bonitos com becas extravagantes, Orfeus negros, corpos reluzentes e estrelas nos olhos que olhavam para ela. Sentia um formigamento nas pernas como se aquela posição incomodasse e por alguns instantes queria ir se entregar naqueles braços mornos de amor, porém logo passava. E lá estava Carolina paralisada na janela olhando a rua passar (rua passa?) meio desagregada e tão quieta, sem alegria, cor nem sorriso e ficava cada dia mais feia.
Sophie falava sem parar dela, por esses dia nem tanto, mas há um tempo atrás...
"Sim, conte-me mais" insistia e ela fazia-se de rogada, desviava o olhar, cruzava as pernas: como se eu conhecesse muito bem a menina da janela.
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