terça-feira, 21 de agosto de 2012

Persona

Ela sentou no centro do palco de pernas cruzadas e pensamento fixo. Olhava para o faixo de luz que saía do refletor.
Alguém roncava na platéia, não importava. Outro estourava um plastico-bolha demonstrando ansiedade. Da fila do meio á direita vinha o barulho de um celular tocando. Ao fundo podia-se ouvir os rangeres de dentes.
Ela estava cega e ouvia as formiguinhas passando em fileira na sua frente.
Segurou com força o braço direito a ponto de sentir as unhas entrando na sua carne e o sangue saindo. Estava pouco concentrada, achava que não estava ali. Não importava.
Passou segundos, a plateia começou a ficar preocupada e os barulhos aumentavam. Ela não ouvia.
Estava surda e via as formiguinhas passando em fileira na sua frente.
Levantou o braço e lambeu com vontade, gosto de sangue. Sangue, sangue, sangue. Era feita de sangue e tinha nojo.Não aguentava ver que vomitava tudo, depois tinha que comer de novo, o que ia virar sangue e carne mais tarde. Não parava de sangrar e tinha raiva disso.
Levantou, precisava gritar. A plateia estava estática, todos querendo entender de que ideais ela iria tratar, para depois comentar no jantar e demonstrar o quanto eram eruditos por entenderem tudo...
E por mais que tentasse não saía. Ficou de pé no centro do palco, com a boca aberta e os olhos cegos.
Ela estava muda e sentia as formigas se aproximarem.
Não havia maior desespero do que a voz não sair, presa no próprio corpo. Gritou dentro, mas foi grito muito agudo: fez com que sua pele, feita de sangue, explodisse. Jorrando uma gosma verde nas paredes e assustando a platéia horrivelmente. Todos gritavam.

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