quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Conto de ninar de contado por um ônibus

Ela subiu no ônibus. Ele olhou para ela.
Vidrou o olhar sério no fundo da alma dela. Sem saber o que fazer, se procurava o dinheiro, se olhava de volta, se abria espaço para a moça que subia passar, ela ficou sentida. E sentiu-se plena por  que ele a tinha olhado, o resto da noite era belo, deu-lhe vontade de viver só por causa daquele olhar.
Sentou no banco no ônibus e ainda tentou ver se ele mirava do ponto, mas naquele ponto as pessoas já tinham virado um monte de cores só. Ela sorriu por que de repente percebeu uma cabeça olhando para trás, mas não era certeza que era ele ou se era para ela. Sentiu frio na barriga, "Sensação infantil" pensou. Ela tinha trocado duas ou três palavras com ele, sabia que tinha uma história parecida com a sua, mas a coisa toda acabou aí, pois desde então ele a ignorava. Ignorância de carinho, de temor. Mas como pode ele de repente olhar assim para ela? Será que era o cabelo? A postura que mudara? O dia que trajara? Ah, nem sabia. Não pensou muito nisso, a viajem era longa e o livro já estava em seu colo para ser deleitado. 
Porém, não. Não tinha como ler nada, nem se tentasse fixar em qualquer ponto. Era ele e seus olhos que pensavam por si sós na cabeça dela. Depois de tentar entender, se concentrar, sussurrar as palavras desistiu. Fechou o livro, encostou a cabeça no vidro da janela e dormiu, esperando que amanhã ele olhe para ela com tanta vontade e siga, trocando palavras. Ela aproveitaria qualquer brecha, um "oi" tímido bastaria, já seria plena em seus sonhos de criança embalados pelo balanços e rangeres do velho ônibus. 

Um comentário:

  1. Magnífico !


    ( Em julho viajei e passei em Salvador, pena que não fiquei muito tempo... lembrei de ti :))

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