- Olha assim: vamos mudar o mundo e depois nos matar! Que
tal? Um plano sem sentido nem fundamento, só para causar mudanças, um belo
objetivo.
- Olho sim! Vamos pular na cama, gritar, queimar soutiens, calcinhas,
pijamas... Vamos andar nus gritando sobre a vida sem roteiro.
Seus olhos gritavam enquanto ela pulava na cama tirando a
roupa olhando o teto e rindo da nossa vontade de fazer as coisas diferentes.
Nós dois sabemos o agora foi feito de muitos agoras, e isso é muito difícil de
mudar.
Eu estava sentado olhando seus suspiros de eloquência, enquanto
ela sabia o que fazer e eu não. Sabia que queria escapar e eu não, sabia que
era assim e eu... Bem, disso eu nem sabia que não sabia.
Quando viu que eu estava sério demais se aproximou devagar, engatinhando
pela cama, os seios duros pendiam entre seus braços e ela me sorria. Olhava
para mim sem intenção, séria, muito compenetrada para ser quem era, acho que eu
também estava assim. Estava vindo tão divagar que me falou sobre toda sua vida,
todos seus segredos e todas suas mortes pelo olhar direto e seguro. Cada
movimento seu não hesitava em ser inteiro, era ela por ela, no silêncio de um
quarto vazio, uma cama vazia, duas pessoas cheias de sentimentos gritando no
silêncio. Seu corpo nu não me dizia nada, não sentia desejo, nem o cheiro do
sexo se aproximando, só via seus olhos desprovidos dos esconderijos e segredos.
Agora, ela não era mais mistério para mim. Quando estava perto fez de minha
perna apoio para sair da cama e subir na poltrona, sentia seu hálito se
aproximando do meu rosto, chegou tão perto quanto não se pode ver os olhos mas
só borrões de cores almadas. E disse:
- Beije-me.
Segurei-a pela cintura fazendo seu corpo se encaixar com o
meu: pele e roupa. Minha camisa azul com cheiro de escola, alvejante e desodorante.
Senti um de repente um desejo tamanho, como mágica. De repente veio aquela
frase do Che:
- “Um revolucionário é feito de grandes atos de amor”
Mas quando eu fui beija-la, ela afastou seu rosto inclinando-o
para baixo em uma gargalhada que ecoou no quarto. Depois me pediu desculpas por
não aguentar, mas era que ela não acreditava muito no Che, principalmente antes
de um beijo. Ainda acrescentou que “La poderosa” era o seu verdadeiro amor
revolucionário. Disse tudo isso enquanto pulava do meu colo e vestia um vestido
vermelho. Por que vermelho?
Senti meu estomago revirar, minha vida passar diante daquele
instante de desespero. Quando pensei que ela ia voltar me disse que tinha que
ir, que talvez me ligasse ou quem sabe “agente se esbarra por aí um dia desses”.
Deu-me um beijo na testa e saiu pelo mesmo lugar que entrou a janela.
Estava ainda estático na cadeira suando frio, com medo de
não vê-la novamente, e não vi mesmo.
buen post acerca
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