terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pedra ou cristal?

No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho... ou seria um cristal? Era desprovida de brilho ou vida, e para ter tais adjetivos precisaria ser muito polida, só assim ostentar o poder e ambição de todo cristal de vitrine, porém ela estava no meio do caminho.
Ela mesma (a provável pedra do meio do caminho), não sabia se queria ser cristal ou pedra. Ao pensar na pose exuberante e luxuriosa de um cristal prefere ainda ficar na sua alternativa vida de pedra, calada, bruta, pensando no meio do caminho sobre o que é, e levar-se apenas por suas próprias pretensões de conhecer o mundo, o que julga melhor que ser levada por um lapidador, o qual só quer converte-la em sua pequena e individual verdade estética.
Ao pensar em ser pedra, refletia sobre as negligencias do mundo para com todas elas (pedras), já que carregavam o preconceito de estar sempre atrapalhando a passagem no meio do caminho. E ela se encontrava naquele instante meio do caminho.
Por ter que escolher, achou mais justo dar-se uma classificação única, seria a pedra-cristal, ou seria cristal-pedra?
Devaneava em um dia uma geóloga/        geólogo, se debruçar sobre livros ao tentar interpreta-la descobrindo a paixão pela beleza que aquela pedra-cristal guarda em sua verdade ambígua. Assim, ela também dedicaria horas para entender o mundo do seu, ou sua, possível admirador (a), e ao fazer isso se apaixonaria perdidamente pelos olhos que a observam com tanta devoção. Seria amor fraterno, eterno e implícito na existência dos dois, ou das duas.
Acordando do sonho acordado percebe que ainda está no meio do caminho, olhando as estrelas e a lua minguante, sem falar meia palavra se quer. Percebe ainda sua imensa solidão quando ao olhar para os lados não vê coisa além de matinhos e hortelãs. Ela sabe, e tem muita certeza nisso, que nas mais profundas questões da alma está só, no meio do caminho, como uma pedra.
E no meio do caminho tinha uma pedra no meio dos matinhos e hortelãs.
Então escuta um barulho: uma voz infantil cantarola canções infantis. Olha para cima e percebe uma menina com olhos grandes de gato a observa-la, ela abre um sorriso grande de orelha a orelha e estende a mão para pegar a cristal-pedra.
No meio do caminho tinha/tem uma menina, tinha/tem uma menina no meio do caminho. Ou será que era uma menina a observar uma pedra-cristal?
A pedra-cristal pensou ter encontrado sua alma intima com quem compartilharia todas as suas questões mais profundas. Encheu-se de emoção e no calor daquele instante e resolveu declarar o quanto se sentia una com a aquela menina de olhos grandes, o quanto naquele momento solitário ela se tornou importante, quanto repentinamente a amava, falaria da sua indecisão sobre escolher entre pedra e cristal e com certeza ela entenderia, já que a menina sabia desde sempre o que era uma pedra-cristal ou cristal-pedra. E desatou a falar em língua de pedra-cristal, falava com o coração que toda pedra-cristal tem. Mas ninguém entende por que todos os cientistas, os adultos, os pais e mães do mundo diziam que pedras não falam e pior: dizem que pedra não tem coração.
A pedra-cristal percebendo a falta de respostas da menina e vendo aqueles olhos vazios a olhar cada pedacinho do seu pequenino corpo, paralisou. A menina pulou e irrompendo o silêncio sem imaginação pregado pelos adultos, gritava que encontrara, por um milagre, uma pedra, mas que não que era qualquer pedra, era a única pedra-cristal existente no mundo.
E no meio do caminho tinha uma menina solitária, tinha uma menina solitária no meio do caminho, caminho de matinhos e hortelãs, onde achou a pedra única: sua alma intima que levaria para todo o sempre perto de seu peito, dividindo suas questões mais profundas e devotando um amor especial pela solidão que aquela pedra-cristal propunha não só a ela, mas a toda humanidade.

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