terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Desvaneio dos anjos

Subi o morro veloz
Levando nas mãos nada mais que uma correspondência
Fazia o movimento atroz de toda atriz
De mentir para si mesma sobre a realidade em verniz

Signo de ruiva de saia azul miragem
Levava o dia a passar como em uma viajem
Fugia tudo que era verde como não são os olhos dele
Dosei os passos para não incidir sem ver a paisagem

Sentia a dor dessa colagem, saudade
Faziam-se pesados, então
As cartas que segurava com força nas mãos
Desci dos meus sapatos altos, pulei no chão.

Só o chão que está em toda parte
Lamentei por ele não ter tanta arte
Fingi partir para ele me seguir sem muito aconselhamento
Assim, cada um levava uma porção do sentimento

Me perdi no meio da estrada
Por que não sabia mais qual enseada estava
Meio tonta, desesperada, olhei para frente
E voltei o caminho ardente

Sem sentido com os sentimentos nas mãos
Sorri só, por ver um grande cubo aberto
Sem estar coberto escondia algo
E essas coisas chamam atenção

Soltei os sapatos no firmamento
Subi corrente descalça a escada escorada na parede cinza
De lá pude ver dentro o tamanho de tal amarela profusão
Ele sentado, calado, no chão

Rabiscava um papel rubro
Chamei seu nome e me respondeu com um sorriso de outubro
Sorri de volta por que reconhecer é uma absolvição
Descubro e recubro que as cartas estavam amassadas, desespero

Pulei porque ouvi as cores dele chamar
Por serem tão fortes fizeram-se exatas
Caí em seus braços de amansar essas coisas perdidas no tempo
Mas o que se perdia mesmo eram as cartas, emudecidas ao vento

A noite caía e o dia se fez ciência
No meio do céu estrelado acordei
De novo em casa sem vestido azul nem correspondência
Só o som das arpas de um desejo calado que sonhei

Para Alisson

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