Falava para ela que este ano havia passado muito rápido, e que o tempo se tornava traiçoeiro, começava a me empolgar com o tema, iniciando meus ensaios intelectuais. Abruptamente ela me interrompeu para dizer que o tempo não passa, quem passa por ele sou eu, sentir o tempo passar mais rápido é um sinal de que estou perdendo meus olhos de criança, olhos de espanto com o mundo, que talvez eu estivesse ficando com um tipo de catarata muito comum. Inclinou-se como se quisesse falar-me um segredo: "O que faz o tempo parar é a capacidade de ver o novo, o monótono e previsível passa rápido, o segredo é olhar o imprevisível, sem que ele se torne rotina, só para não cegar. Nadar contra a corrente é sempre um bom exercício."
Eu ri, mas ela não riu. Mandou que me calasse, soltou o copo no chão, o som choque se fez, calei-me. Olhando profundamente os olhos de Sophie, perdi qualquer pensamento sobre o carpete ou a sujeira que aconteceu. Ela me olhava friamente. "Acorde!", gritou (ela adora gritar, acho que pensa que não dou a atenção necessária ao que diz). De súbito realmente acordei e uma brisa leve entrava no quarto, me fazendo lembrar de antigos amores, Sophie andou até minha cama e me deu um beijo quente. Depois sumiu.
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