terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Animus/Anima

Vale a pena não, viver pela metade, viver sem viver direito, beber sem tragar direto, matar sem o direito de morrer depois. Como casar e não ajoelhar, que não seja no altar, então na cama, nem que seja de quatro. O impasse de estar e não estar, entrar e ficar do lado de fora.
Nem vale tentar se for pensar que vai morrer antes. Ah, com tudo se morre!
Estou em cima do muro, esperando o lado melhor se anunciar para eu me jogar e me estatelar de cara no chão, sem pensar na dor, só no voo que será maravilhoso.
Nem sei se vale a pena, ainda assim, esperar.

Tão pouco, depois, vale se lamentar. Tão pouco valerá ficar na janela e ver o tempo passar, como passam os carros, as velhas, os travestis, os viciados e as putas da cracolândia.

Fiquei com a pele de cobra, me vesti em meu Animus, só por uma noite é claro. Meu ego ainda me espera na esquina, quero só me dar o direito de ser por meio norte sem fim , só por hoje.
Ser tomate, vermelho de sangue em cima da mesa, do radio, do seu fogão.
Chutar a bola e xingar o juiz, maldizer a mãe deles, só para me tornar inteira de Animus.

Por que Anima me espera de madrugada, desesperada, perguntado por onde ando, na cama quente. E dela não nego ser inteira.
O problema é o caso antigo que os dois tem, caso de antropofagia, um engolindo o outro com voracidade. Por isso o dilema de valer a pena.
Não ser pela metade, por que pode acabar de eles se comendo, queiram me comer. Ou me deixe só, o que por mais que pareça ruim, me parece vazio e isso: bom.

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